Droga de Iemanjá!!

A minha avó materna era aquela pessoa bem prática na hora de resolver e comprar os presentes de Natal de todos os muitos netos: entrava em uma única loja e comprava tudo de uma vez. Não se preocupava com os gostos ou com as idades super variadas dos netos.

Teve o ano do pijama e todo mundo ganhou a tal roupinha de dormir. Teve ano da meia, do maiô, da roupa de cama, das toalhas de banho, tudo igual para a netaiada! (Infelizmente, não me lembro do ano da bicicleta ou do vídeo game…).

Dois anos me marcaram mais: um, em que ela deu avental de cozinha para todas as netAs. Ninguém estava com os pés no altar, mas ela disse que já estava pensando no enxoval de cada uma. O outro ano marcante foi o que a minha avó imaginou que seria o seu último e resolveu doar as suas próprias coisas, louças, cristais e afins. Mas, detalhe: ela etiquetou cada um dos presentes e nos mostrou os nossos nomes em copos, pratos e pratas. Era nosso, cada neto tinha o seu nome em uma etiqueta, mas só teríamos o verdadeiro direito ao presente quando ela se fosse.

As etiquetas chegaram a amarelar de tanto que demorou e ainda bem que foi assim. Muitos anos depois, recebi um lindo jogo completo de copos de cristal.

Isso foi só um parênteses, pois o que eu queria contar mesmo foi do ano em que ela resolveu presentear as netAs com bijus. Eu devia ter uns 15 anos e ganhei um brinco de ouro branco, com pérolas e brilhantes. Quer dizer, eu achava que era isso tudo, aos meus olhos era e sempre será, mas não era jóia, gente, era uma biju linda!

Saí daquele Natal de brinco novo e lá fui passar o ano novo brilhante e perolada. O Revéillon seria na praia e a nossa anfitriã tinha o hábito de jogar oferendas para Iemanjá à meia-noite do dia 31. Ela levava flores, perfumes, sabonetes e outras coisas para enfeitar a Rainha do Mar.

Confesso que nunca fui fã dessa prática e espiava tudo de canto de olho. A anfitriã observava e compreendia a minha postura, mas vivia me alertando:

- A gente precisa agradar Iemanjá, senão ela toma para si o que gostar.

Ba-ta-ta! No dia seguinte, o primeiro do ano, era uma vez um brinquinho de ouro branco com pérolas e brilhantes. Fake, eu sei, mas me dói até hoje, tanto que tenho guardado em uma caixinha de jóias um única brinco desparelhado até hoje.

*****

Nesse último Natal que passou, o Joaquim ganhou da bisavó uma floresta cheia de bichos. Pertence àquela marca cujo slogan diz “um mundo de aventuras” e, de fato, proporcionou muitas brincadeiras e diversão. Tem macaco, hipopótamo, onça, tucano, gorila e tudo o que é bicho. Joaquim curtiu e se apegou tanto que resolveu levar a onça para passear na praia. Mas, brincar na areia não foi o suficiente, resolveu levar para o mar. Segurou firme, mas veio o braço da Rainha do Mar em uma onda daquelas e pronto! Era uma vez uma onça de um mundo de aventuras.

Ele me perguntou trocentas vezes se nunca mais veria o brinquedo, com quem a onça ia morar a partir do momento daquela onda devastadora, se ela aprenderia a nadar, se um tubarão a comeria e se o Nemo poderia ser amigo da onça.

Filho, não sei, mas te digo que o dia 2 de fevereiro nunca será um dia de comemoração para mim e nem para você…

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