O picolé de fruta e a morte da tartaruga

Se você estiver em uma praia lotada durante o feriado e perceber que, de um segundo para o outro, um bando de crianças saiu correndo na mesma direção, não tem dúvida ou segredo: chegou o sorveteiro! Enquanto as crianças correm, as mães e pais fuçam em suas bolsas, procuram o dinheiro e seguem atrás dos filhos para pagar o picolé.

Dois meninos, amigos ou primos, entre 4 e 5 anos, foram os primeiros a chegar no carrinho vermelho de sorvete. Apoiaram-se naquela plaquinha que seria o “cardápio de sorvetes” e ficaram olhando, admirando e escolhendo o sorvete do dia.

As mães vieram logo em seguida. Uma delas posicionou-se atrás dos dois meninos e bem de frente para o sorveteiro. A outra, estava do lado oposto e atrás do sorveteiro. Os dois meninos começaram a gritar em coro:

- Brigadeiro! Brigadeiro! Brigadeiro!

A mãe que estava atrás deles se sacudia inteira, porém em silêncio e fazia um enfático “NÃO” com o dedo para o sorveteiro. A mãe atrás do sorveteiro cochichou algo no ouvido do rapaz que disse em seguida:

- Só tem picolé de fruta.

Depois que os dois meninos escolheram seus picolés de frutas, observavam, entre uma lambida e outra, as outras crianças que saiam dali com picolés doces e extremamente açucarados em mãos.

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Quando eu era criança, tive uma tartaruga que era a minha paixão. Batizei-a com o nome de Maria Pia, coisa que acho chique até hoje. Fomos passar férias na praia e a Maria Pia nos acompanhou na viagem. Ela passou bons dias ensolarados em um lindo jardim que havia na casa que havíamos alugado para o verão.

Na hora de ir embora, fui em busca da Maria Pia e a minha mãe me deu a triste notícia de que a Maria Pia havia arrumado um namorado, me deixou um grande beijo, mas foi embora com um tartarugo qualquer. Não foi tristeza que eu senti ali, não, foi traição mesmo, com um toque de decepção pela minha querida tartaruga ter me abandonado pelo primeiro tartarugo que apareceu.

Alguns anos depois, a minha mãe me contou que não teve namorado nenhum, a Maria Pia foi encontrada morta, picada por uma aranha, uma cena horrível da qual ela quis me poupar. Longe de mim condenar ou julgar a atitude da minha mãe, mas hoje penso que eu gostaria de ter sentido tristeza pela morte dela, de ter podido me despedir e até de enterrá-la naquele lindo gramado. Colocando na balança, esses sentimentos e a possibilidade desse ritual de despedida me soam melhor do que traição de decepção por uma tartaruga.

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Eu já vi pais e mães que liberam todos os sorvetes, independentemente do nível de açúcar e calorias. Tem uns que deixam os filhos rolarem na areia de tanto chorar, mas não compram sorvete em hipótese alguma. Já presenciei aqueles que deixam claro que só pode escolher os de fruta mesmo e ponto final. Tem também pais e mães que negociam o picolé pelo quanto que cada um custa. Ou seja, cada família tem seus acordos, regras e negociações.

E, mesmo assim, os episódios da morte da tartaruga e o do picolé de frutas x picolé de brigadeiro relacionam-se na minha cabeça de uma maneira absurda e até exagerada, não consigo dissociá-los. Tanto eu como os dois meninos, fomos “protegidos” de alguma coisa pelas nossas mães. Se a minha mãe estava preocupada com os meus sentimentos e tentou me esquivar da tristeza pela morte da tartaruga, as mães dos meninos estavam preocupadas com a alimentação dos filhos e tentaram – com sucesso – poupá-los de um picolé cheio de açúcar. Novamente, longe de mim julgar ou condenar essas mães, só elas sabem as dificuldades de alimentação dos filhos, os desafios diários, as birras enfrentadas por frustrações e pelas negativas, mas fazer valer a regra do “só pode picolé de fruta” através de um “segredo” contado no ouvido do sorveteiro me pareceu também exagerado.

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Um Batman Caiçara

Há quase 7 meses que eu tenho sido chamada de louca. Alugamos uma casinha na praia e íamos todos os finais de semana. Não havia previsão de tempo ruim que nos impedisse, até porque descobrimos que as previsões erram. E muito. Chegamos a ver todos os climatempos da vida falando em tempestade e frio, pegamos estrada debaixo de chuva e, daí, sábado amanhecia com o céu limpinho e muito calor.

E, então, eu era louca por toda a trabalheira que tinha: fazer e desfazer mala de um casal + 3 crianças todos os finais de semana, roupa suja, molhada e de areia, estoque de repelente, protetor solar, brinquedinhos de praia mil (que vivem molhados e impregnados daquela areia preta), enfim, uma “casa” a mais para cuidar aos finais de semana. É muito trabalho mesmo, não nego e concordo com a loucura atribuída a mim.

Por outro lado, essa casinha mudou a qualidade de vida da nossa família em um  nível que nem poderia imaginar! A gente passa o dia na praia, as crianças soltas, entram e saem do mar, tomam picolé, se esbaldam na areia, uma delícia!  Eu realmente tenho muuuuuito mais trabalho na praia, mas se houvesse um “estressômetro”, ele ficaria sempre zerado enquanto estamos por lá.

Última informação para matar todo mundo de inveja: EU DURMO TODAS AS TARDES DEPOIS DO ALMOÇO.

Sem mais, ok?

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Mas, no último mês, começou um friozinho,  surgiram alguns programas, as crianças começaram a ficar com saudades de sair em São Paulo e deixamos de ir para a praia por umas 3 semanas (estressômetro nas altuuuuuuras!!). Encaramos muito shopping center, cinema, zoológico, aquário, pracinha e até o tal do Batman Live!

Depois desse tempo todo sem ir, passamos o último final de semana na praia. Com um friozinho típico da época do ano no começo da manhã e no fim da tarde. Mas, tirando esses momentos, parecia um fim de semana de verão!

Só que esse tempo todo sem praia e com muita cidade é realmente ruim para  repertório caiçara, praiano e “surfístico” dos meus filhos. Eles viram um surfista saindo do mar, com aquela roupa preta de neoprene que cobria dos pés à cabeça e começaram a gritar:

- O Batman! É o Batman! O Batman tá saindo do mar na “batprancha!”.

O Batman da Praia...

... e o Batman "de verdade". Parecidos?

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