AS MENTIRAS BRANCAS

Provavelmente, em um daqueles dias de chuva nonstop, fechada com 3 crianças no apartamento, eu já ia partir para a 37a. bronca, mas respirei fundo e disse pausadamente, dentes semi-cerrados:

- Vocês querem ver a Mamãe virar uma onça, é isso mesmo?

- Mas você sabe se transformar em onça, Mamãe?

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Em outra ocasião, certamente mal-humorada, comentei:

-Ai, tô verde de fome!

- Não, Mamãe, você tá bege.

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A primeira quebrada de perna veio do Pedro, o menino doido para ver uma onça. E, a segunda, veio do Joaquim, rapazinho que sabe tudo sobre as cores.

Esses momentos são dos mais deliciosos de toda a minha vivência da maternidade. As crianças são extremamente literais, o que eleva a fofura em grau máximo diante da pureza e da inocência das observações e das falas. Por outro lado, imagino que eles possam se sentir um pouco desamparados ou desprotegidos (algum termo mais adequado?) pela imaginação e pela fantasia geradas pela fala de um adulto. Quão assustador é imaginar uma mãe se transformando em uma onça? Ou ficando verde?

Na dúvida, sou literal:

-Mamãe vai precisar dar outra super bronca em vocês?

-Ai, a barriga da Mamãe está doendo de tanta fome!!

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Figuras de linguagem à parte, passamos às “lendas urbanas”  que os pais, professores e responsáveis contam por aí.

Manuela não podia ver uma gota de água pingando que saía gritando aos 4 ventos:

-Pára! Pára! Fecha essa torneira! Assim vai acabar a água do planeta!

Novamente, na imaginação e na fantasia de uma criança, não deve haver tragédia que se compare ao fim da água do planeta. Até que, novas sinapses se conectam, a criança passa uns bons muitos dias de muita chuva na praia e conclui:

- Mamãe, sabia que a minha professora contou uma mentira?

Resolvi investigar, vai que dá para reaver o dinheiro da matrícula, né?!

- Jura, Manu? Que mentira ela contou?

Mocinha toda esclarecedora, determinada e firme em suas idéias:

-Ela falou que se deixar  torneira aberta ou pingando, ia acabar a água do planeta, mas eu descobri que era tudo mentira. A água que a gente usa, a chuva traz de volta.

(Argumento eco-sustentável foi, literalmente, por água abaixo!).

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Tem o papo da lagartinha também. A tal que vem à noite e come os dentinhos de quem não os escova direito antes de dormir. Ninguém tem intenção de assustar as criancinhas, mas a gente preza pelos cuidados com os dentes, fica querendo incentivar uma boa escovação e… apela para a lagarta. Tsc, tsc, tsc. A estratégia caiu por terra quando fui colocar os meus filhos para dormir, pedi um beijo para cada um deles, mas o meu pedido foi negado: eles estavam cobrindo suas bocas com as mãos para a lagartinha não vir no meio da noite…

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E é com as próprias crianças que eu aprendo como educá-las e cuidar delas. Nada de “mentirinhas” ou figuras de linguagem. Sejamos literais, até certa idade, é claro e falemos sempre a verdade: se não escovar os dentes, vai ter que enfrentar o motorzinho do dentista! (Se bem que eu acho a lagartinha bem mais simpática do que o motor do dentista…).

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E esse post me lembrou dois livros que estão entre os nossos favoritos. O primeiro, “Uma Lagarta Muito Comilona” (Eric Carle, Ed. Kalandraka Brasil), conta a história de uma lagarta que come de tudo, menos dentes de crianças, ufa! O livro da lagarta é recomendado para crianças a partir de 3 anos, mas acho que os menores podem curtir também, principalmente pelas ilustrações.

E o segundo, “Quando Mamãe Virou Um Monstro” (Joanna Harrison, Ed. Brinque Book), fala sobre uma mãe desesperada com a bagunça que os filhos fazem e com a vinda dos sobrinhos para tomar lanche. Ela vai se transformando ao longo da história e pode até assustar um pouco, mas o final e a moral são interessantes. Leitura recomendada a partir dos 3 anos (acho meio cedo, minha opinião! Acho que para essa fase etária é que pode assustar!).

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O RETORNO DA ONÇA

Atualmente, as minhas maiores emoções são causadas pelos meus filhos. Uma novidade, uma habilidade conquistada, uma gracinha, um carinho, uma apresentação na escola, um desenho, tudo o que vem deles é capaz de me levar às lágrimas com a maior facilidade!

Outra coisa que me emociona com frequência e ver os meus filhos sendo agradados por outras pessoas. Sentir que eles são queridos pelos nossos amigos, pela família e a reciprocidade de sentimentos também é lindo de ver. Não sou uma mãe ciumenta, sabe? Gosto que gostem dos meus filhos e que eles gostem das pessoas, isso é um indício bacana da personalidade deles.

Mas, o mais surpreendente mesmo, é ver o carinho de pessoas “virtuais” pelas crianças. Gente que não conhece esse trio, mas já se apega, vira “tia virtual” e quer agradar pela simples e genuína vontade de agradar em troco de nada. É a mais verdadeira expressão do carinho pelo outro. Nos dias de hoje, coisa rara. Na internet, mais raro ainda.

Só que essa tal de blogosfera materna é a exceção da exceção.

Uma vez, eu comentei que o Pedro era alucinado por macacos e lá veio da Mari querida o DVD do George, o Curioso. Recentemente, falei da tristeza do Joaquim por perder a onça no mar e uma leitora tímida, a Dani, me mandou email, pois ela tinha a tal da onça que o filho nem dava bola e, pronto! Mandou a onça de presente para o Joaquim. Dá para acreditar numa coisa dessas?? Eu fico muito, muito emocionada com essas manifestações de carinho. Já agradeci tanto, que a Dani até me mandou parar… (Ah, se ela tivesse visto o tanto que eu chorei…).

Só para contar o desfecho do “causo da onça”, fui buscá-la no escritório do marido da Dani aqui em São Paulo bem no dia em que estávamos indo novamente para a praia, local em que, na última vez que havíamos ido, a onça resolveu se perder no mar.

Levei a onça bem escondida na minha mala, resisti à ansiedade de entregá-la antes de chegarmos na praia e, numa ida do Joaquim ao mar encher o baldinho de água, posicionei a onça na areia. No momento em que voltou, só faltou largar o balde no chão de tanta alegria! Ele só conseguia falar: “ a onça voltou, ela parou de nadar, a onça voltou, ela parou de nadar!”. Coisa linda de viver foi vê-lo mostrando para o Pedro e para a Manu a sua oncinha querida que resolveu parar de nadar e voltar. Os dois compartilharam tanto a alegria do Joaquim que só um belo Ray Ban para disfarçar a emoção da mãe.

O moleque passou o fim de semana grudado no brinquedo que retornou do mar, feliz que só vendo, ó:

(Dani, vou parar de te agradecer, mas agora está devidamente registrada a minha eterna gratidão!).

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Droga de Iemanjá!!

A minha avó materna era aquela pessoa bem prática na hora de resolver e comprar os presentes de Natal de todos os muitos netos: entrava em uma única loja e comprava tudo de uma vez. Não se preocupava com os gostos ou com as idades super variadas dos netos.

Teve o ano do pijama e todo mundo ganhou a tal roupinha de dormir. Teve ano da meia, do maiô, da roupa de cama, das toalhas de banho, tudo igual para a netaiada! (Infelizmente, não me lembro do ano da bicicleta ou do vídeo game…).

Dois anos me marcaram mais: um, em que ela deu avental de cozinha para todas as netAs. Ninguém estava com os pés no altar, mas ela disse que já estava pensando no enxoval de cada uma. O outro ano marcante foi o que a minha avó imaginou que seria o seu último e resolveu doar as suas próprias coisas, louças, cristais e afins. Mas, detalhe: ela etiquetou cada um dos presentes e nos mostrou os nossos nomes em copos, pratos e pratas. Era nosso, cada neto tinha o seu nome em uma etiqueta, mas só teríamos o verdadeiro direito ao presente quando ela se fosse.

As etiquetas chegaram a amarelar de tanto que demorou e ainda bem que foi assim. Muitos anos depois, recebi um lindo jogo completo de copos de cristal.

Isso foi só um parênteses, pois o que eu queria contar mesmo foi do ano em que ela resolveu presentear as netAs com bijus. Eu devia ter uns 15 anos e ganhei um brinco de ouro branco, com pérolas e brilhantes. Quer dizer, eu achava que era isso tudo, aos meus olhos era e sempre será, mas não era jóia, gente, era uma biju linda!

Saí daquele Natal de brinco novo e lá fui passar o ano novo brilhante e perolada. O Revéillon seria na praia e a nossa anfitriã tinha o hábito de jogar oferendas para Iemanjá à meia-noite do dia 31. Ela levava flores, perfumes, sabonetes e outras coisas para enfeitar a Rainha do Mar.

Confesso que nunca fui fã dessa prática e espiava tudo de canto de olho. A anfitriã observava e compreendia a minha postura, mas vivia me alertando:

- A gente precisa agradar Iemanjá, senão ela toma para si o que gostar.

Ba-ta-ta! No dia seguinte, o primeiro do ano, era uma vez um brinquinho de ouro branco com pérolas e brilhantes. Fake, eu sei, mas me dói até hoje, tanto que tenho guardado em uma caixinha de jóias um única brinco desparelhado até hoje.

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Nesse último Natal que passou, o Joaquim ganhou da bisavó uma floresta cheia de bichos. Pertence àquela marca cujo slogan diz “um mundo de aventuras” e, de fato, proporcionou muitas brincadeiras e diversão. Tem macaco, hipopótamo, onça, tucano, gorila e tudo o que é bicho. Joaquim curtiu e se apegou tanto que resolveu levar a onça para passear na praia. Mas, brincar na areia não foi o suficiente, resolveu levar para o mar. Segurou firme, mas veio o braço da Rainha do Mar em uma onda daquelas e pronto! Era uma vez uma onça de um mundo de aventuras.

Ele me perguntou trocentas vezes se nunca mais veria o brinquedo, com quem a onça ia morar a partir do momento daquela onda devastadora, se ela aprenderia a nadar, se um tubarão a comeria e se o Nemo poderia ser amigo da onça.

Filho, não sei, mas te digo que o dia 2 de fevereiro nunca será um dia de comemoração para mim e nem para você…

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