Olha, parece Paris!!

Este post é candidato ao concurso “O melhor post do mundo da Limetree

Sou cidadã americana por pura falta de estudo e televisão. Meus pais se casaram e resolveram fazer um mestrado nos EUA. Como se vê, nas horas vagas, não queriam estudar mais e nem deveriam ter TV, então, eu nasci! Foi na Carl Clinic, uma dessas clínicas para estudantes universitários. (Caso interesse, nasci de parto normal sem anestesia, depois de quase 24 horas fazendo mamãe sofrer).

Quatro meses depois, em uma data histórica, no dia da morte do John Lennon, os meus pais estavam de malas prontas para voltar ao Brasil. O meu pai trazia na bagagem o título de mestre em Direito Comparado e a minha mãe, coitada, trazia uma mala de fraldas descartáveis, já que esse artigo bebezístico era puro luxo em terras tropicais. Meu pai deve ter achado a própria mulher uma louca, mas eu teria feito pior: traria meia dúzia de malas abarrotadas de fraldas descartáveis!

Uns cinco anos depois, eu já tinha uma irmã dois anos mais nova, o estoque de fraldas descartáveis não existia mais, mas ainda faltava o título de mestre da minha mãe. Então, ela resolveu voltar para os EUA, estudar e terminar o mestrado.

Obviamente, não foi uma decisão fácil ou tomada do dia para a noite. O título de mestra custaria à minha mãe uma temporada de 4 meses longe das duas filhas e do marido. Mas ela foi buscar o seu ouro e nós ganhamos uma temporada com os nossos avós, já que o meu pai tinha que fazer valer o seu próprio título de mestre e não daria conta de tudo (os homens que me perdoem, mas dar conta de tudo é uma exclusividade feminina!).

Portanto, lá fomos nós morar num interior bem pertinho, o que permitia ao meu pai ir passar todos os finais de semana conosco. Alem dessa mudança, ganhamos uma nova escola, um novo clube, muitos novos amigos e a convivência mais próxima com os nossos primos queridos.

A verdade é que hoje eu poderia ver essa situação toda com o maior drama do mundo, mas tenho excelentes memórias e lembranças da época, até saudades…. Mas o detalhe que realmente importa para esse post é de que não havia tinha telefone à vontade como se tem hoje em dia, era caro e raro, portanto a visita do carteiro era digna de recepção real.

Através de cartas semanais, cartões inesquecíveis da tradicional Hallmark, envelopes coloridos recheados de fotos do campus e daquela cidadezinha universitária perto de Chicago, eu acabava me sentindo mais próxima da minha mãe e da vida que ela tinha longe de nós.

Fico imaginando como a minha mãe sobreviveu tanto tempo longe da família, a uma distância física que até me parece maior pela ausência de certos recursos tecnológicos (se alguém merece um Oscar, é o Mr. Skype!).

Recentemente, fui presenteada com o diário que a minha avó escreveu sobre esses meses que moramos com ela. É uma lembrança divina, deveria ser lida por toda a família, depois emoldurada página por página e exposta em algum museu muito importante.

Engraçado ver como a minha avó era uma grande observadora, pois além de relatar a quantidade de banhos que nos deu durante esse período (freak?) ela sempre me descrevia como uma menina brava e mal-humorada…

Mas, enfim, hoje, como mãe, me emocionei um montão com a leitura do diário e posso imaginar o que ele significou para a minha mãe naquela época.

Eram esses os recursos que pais e filhos dispunham para matar as saudades e imaginar o que o outro estava fazendo em um país tão, tão distante. Cartas, diários e cartões, muito lindo, quase poético.

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Ano passado, Maridinho e eu fizemos a nossa grande viagem desde que tivemos os nossos filhos. Foram 16 dias na Europa e reservamos uma semana para ficar em Paris, que foi o que mais despertou o interesse e a curiosidade das crianças, especialmente da Manu.

Eu tirava fotos durante o dia e tinha que mandar pra ela à noite, pois, assim, Manuzinha”viajaria” junto comigo e conheceria as mesmas coisas que eu.

Quando nos falávamos pelo Skype, ela mal olhava na minha cara, só olhava em volta, para saber onde eu estava, que lugar era aquele, o que tinha no meu hotel e etc. E, desde então, Paris é o maior sonho de consumo da minha filha, aquela que é a última (e única) das românticas de 4 anos de idade.

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Tudo isso para contar que estávamos indo para a praia, nada romanticamente excepcional, apenas o litoral norte paulista. Na descida da serra, já de noite, ela olhava serra abaixo e via as casinhas iluminadas, até que fala num tom de suspiro:

- Olha, parece Paris…

Maridinho pergunta:

- Você já foi pra Paris, Manu?

- Não….

- Então, como você sabe que parece Paris?

- Ah, Papai, porque eu vi no Ratatouille….

A coitadinha viu São Vicente lá de cima e se lembrou de Paris, aquela cidade muito, muito longe, que só os pais vão e que a ela só resta imaginar a partir de um rato cozinheiro e daquele corcunda que mora em uma enorme catedral….

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(Esse post não é um publieditorial, mas pode ser, caso a Air France ou qualquer outra companhia aérea que faz São Paulo – Paris, se interesse).

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Retratos (ou fragmentos??) de uma mãe

Este post é candidato ao concurso “O melhor post do mundo da Limetree

 

Achei uma pipoca murcha na minha bolsa. Outra dentro da minha blusa.

O meu sutiã preferido, sumido há dias, foi encontrado na gaveta de calcinhas da Manu.

O Woody sumiu. Procura-se. Paga-se bem, criança triste.

Mas achei uma verdadeira coleção de brinquedos embaixo da minha cama.

Tropecei numas bolas e carrinhos.

Bexigas de alguma festinha estouraram durante a noite.

Mandei a menina para o ballet e esqueci a mochila com o uniforme da bailarina.

Mandei os meninos para a casa da bisa e esqueci de mandar as fraldas.

Um friozinho que chega e as calças resgatadas do último inverno exibem três canelinhas ainda bronzeadas.

Um email da escola das crianças comunicando um caso de “PEDICULOSE” quase me desestruturou. Obrigada ao Google, que me tranquilizou contando que não se passa de “piolho”. Coisa que ninguém tem aqui em casa (ainda?).

O meu armário se encheu de formigas por culpa de um remédio sabor morango, framboesa ou cereja mal fechado.

Existe o banheiro da Manu, o do Joaquim e do Pedro e o da Mamãe e do Papai. Pois é este último que conta com tapetes anti-derrapantes, produtinhos Granado e Johnson´s, patinhos e barquinhos mil.

Ao lado do meu sofá branco, novo, lindo e maravilhoso há uma cozinha com-ple-ta e rosa da Hello Kitty. Há também manchas de pés, mãos, frutas e Nescau no meu sofá nem tão branco e novo assim…

Atrás do meu outro sofá, há uma lanchonete com-ple-ta e trambolhenta.

Vejo macacos de plástico pendurados nas plantas do meu terraço.

As nossas vagas da garagem servem de depósito para bicicletas, motinhos, carrinhos de bebê e berços portáteis para viagens.

Encontro o primeiro fio de cabelo branco na minha cabeça enquanto faço caretas e gracinhas no espelho para escovar os dentes de um dos meninos. (Não sei mesmo se era Joaquim ou Pedro, o achado do dia me tirou o rumo!)

Ponho as crianças para dormir e demoro uns 15 minutos para descobrir o que me atordoa tanto. Meio episódio depois, percebo que o Lazytown ainda permanece ligado.

Mas, é quando o silêncio toma conta de casa, que a gente sente saudades da “vida selvagem”!

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