Adeus

Foi o Maridinho quem me ligou na terça-feira de manhã, véspera do feriado do Dia do Trabalho, para me dar a notícia:

- Cá, tenho uma notícia muito, muito triste para te dar: o Pepê morreu!

Segurei o choro, pois estava na frente das crianças e, por motivos de (super)proteção, não quis que eles me vissem chorando pela morte do meu ginecologista/obstetra.

*****

O Pepê me ajudou a trazer ao mundo os meus 3 filhos, as criaturinhas mais amadas da minha vida. Também salvou a minha própria vida depois da cesárea dos meninos. Me deu uma bronca quando o agradeci por ter passado o sábado ao meu lado e cuidando de mim com preocupação nítida e ternura de avô:

- Não me agradeça por isso, Camila.

*****

Eu sabia que ele estava bastante doente e, na última ocasião em que estive no seu consultório, há exatos 6 meses, pude constatar de perto. (A verdade é que a consulta poderia fazer mais tempo, visto que a secretária dele desmarcou e reagendou a minha consulta por “motivos pessoais do doutor”.)

Nas inúmeras vezes em que estive no seu consultório, ele costumava abrir a porta da sua sala para me chamar na sala de espera. Me via lá, sentada, lendo uma revista e sem nem falar “oi”, já perguntava:

- E aí, tá grávida?

Eu dava um sorrisinho, levantava e ele comentava:

- Imagino que não, tá magrinha, mas pode ficar melhor se fizer ginástica.

Ele era assim, direto e com direito às piadas internas.

Há 6 meses, foi tudo diferente. Nada de piadas. Ele me chamou e eu notei o quanto ele havia envelhecido em tão pouco tempo. Entrei na sala e perguntei como ele estava.

- Tô fudido, Camila, bem fudido.

Novamente, ele era assim. Falava palavrões à vontade durante as consultas e não vestia branco. Isso me agradava. Diz a lenda que, há mais de 30 anos, quando ele chegou na maternidade para fazer o parto do meu próprio marido (!!!), o avô do Maridinho quase teve uma síncope e quis proibir aquele “médico hippie de cabelo comprido e que chegou de jaqueta de couro numa moto” de fazer o parto do primeiro neto dele.

A nossa história com o Pepê é bem antiga, o que só reforça a sensação de ternura de avô que eu tinha na presença dele. Raramente atrasava uma consulta e sempre reservava uns bons minutos para perguntar da família inteira, para falar sobre vinhos, restaurantes, viagens e o tão amado Palmeiras. Por pura provocação ao meu marido são-paulino roxo, deixava sempre separado o aventalzinho verde para o momento em que iria me examinar.

- Vai lá, põe o avental do Palmeiras e volta para o exame.

Eram 3 degraus da sala de exame para o banheiro onde eu me trocava e havia uma placa com os dizeres “CUIDADO COM OS DEGRAUS”. Além de eu saber ler a placa e conhecer aquelas salas todas com total familiaridade, o Pepê nunca deixou de me alertar para os 3 degrauzinhos.

Ele me lembrava em todas as consultas que “gravidez não é doença, mas não aceita desaforo”. Não fazia milagres contras os meus enjoos e nem receitava medicamentos, só falava que era importante e necessário que eu me alimentasse a cada 2 ou 3 horas. Eu fazia isso, continuava enjoada e tomava bronca todas as vezes que subia na balança.

O Pepê sempre resolveu todas as minhas dúvidas e ia além da resposta pela resposta: ele desenhava! O receituário dele era daqueles grandões, tipo folha sulfite mesmo, para que pudesse me explicar as coisas através dos desenhos. Uma vez, me deu uma aula sobre os possíveis tipos sanguíneos dos meus filhos pela combinação do meu tipo e o do Maridinho. Tudo o que eu não aprendi nas aulas de Biologia do 1º. colegial, o Pepê desenhou pra mim durante uma consulta. Eu saia das consultas lotada de papéis: pedidos de exames, desenhos e recomendações como ir ao cinema, ao restaurante X e, é claro, acompanhar os jogos do Palmeiras.

Só que agora, tudo isso se foi. Uma pessoa querida e atenciosa, um profissional extremamente competente e uma parte da minha história como mãe. É estranho sentir tudo isso, sentir tamanha tristeza pela morte do obstetra/ginecologista, mas é exatamente assim que a situação se configurou pra mim. Uma pessoa que teve parte importante e significativa na minha vida, partiu.

Tenha a certeza do meu carinho, da minha admiração e descanse em paz, Pepê!

Dê sua opinião também » 4 já comentaram.


  • Ana Carolina Garcia dos Santos

    um abraço enorme, camilitcha. enorme.

  • http://www.facebook.com/michele.wanderlinddomingosortega Michele Wanderlind Domingos Or

    também tenho uma relação assim, íntima e de muito carinho com meu G.O… é quase como um pai/avó… não consigo ir a outro médico… você descreveu o seu, mas poderia muito bem ser o meu médico… recebe na porta,conversa sobre tudo, te deixa a vontade, faz piadas, dá bronca, dá lição de moral, te acolhe, te abraça ternamente… eu não sei como vou reagir no dia em que o meu se for, mas posso imaginar de verdade o tamanho do buraco no seu coração… e não resta nada, a não ser chorar a saudade mesmo… meu abraço bem apertado e muito carinhoso pra você…

  • Adriana Eulalia

    O meu tbm é assim, recebe na porta. Triste perdemos pessoas assim.

  • maria rita

    também agradeci e rezei por ele, filha. ele certamente será lembrado pelas milhares de coisas boas que proporcionou a tanta gente. beijo!