O filho que fugiu da fôrma

Que os filhos chegam em nossas vidas para nos ensinar – à força!! -  uma série de coisas não é novidade para nenhuma mãe. Podia ser com calma, devagar, da tal maneira lúdica e respeitando o tempo da mãe (?), mas é bem o oposto. Considero difícil lutar contra e pedir para desacelerar, portanto acho que cada mãe vive a maternidade na velocidade que o filho lhe impõe, não é?

Uma das melhores imagens que me vem à cabeça sobre isso é dos bebezinhos pequenininhos mamando na mãe. Tem aquele que suga vorazmente, que esgota a mãe com toda a energia que ele investe naquele momento e, em outro oposto, o bebê que mama bem devagarinho, cochila, acorda, mama mais um pouco, dorme e assim vai… Ambos fazendo praticamente a mesma coisa, alimentando-se, recebendo carinho, entrando em contato com a mãe, mas cada um da sua maneira e ao seu ritmo.

A maneira e o ritmo perduram pelo resto de toda a vida, outra coisa que não é novidade. Podem mudar, é claro que mudam, mas verdade é que cada um vai ter sempre o seu “jeitinho”. (Uma particularidade do “jeitinho” que eu adoro ver são as heranças da família, não apenas as genéticas, mas as dos jeitinho do pai e da mãe que os filhos herdam mesmo.)

Quem nunca vestiu uma roupa, se achou linda, daí enfrentou um espelho poderoso e se achou completamente esquisita no modelito? Filho também faz essa função de espelho, tanto para as fofurices, quanto para as esquisitices. A Manu, muitas vezes, é o meu espelho. O Joaquim, também muitas vezes, é o espelho do pai. Para o nosso total orgulho e admiração, assim como para as nossas profundas reflexões. Às vezes chega até a parecer aquela brincadeira irritante e caricatural que as crianças fazem de um ficar imitando o outro.

Quando o filho faz o espelho dos pais, a gente consegue entender uma série de coisas que fazemos de maneira consciente ou não, dos exemplos que damos e do modelo parental que somos. Para as coisas “boas” e “ruins”, exercício de aprendizado sem fim!

Mas, daí, você tem um filho que, apesar de ser gêmeo univitelino do menino espelho do pai, fugiu da fôrma da família. O aprendizado é sem fim também, afinal nada melhor do que aprender com o diferente, mas a curiosidade é o que mais me move e me toca nessas horas.

O Pedro é o meu filho que fugiu da fôrma. Não de maneira geral, mas como o Joaquim e a Manu, muitas vezes. E o que mais me chama atenção é pela diferença gritante que temos e pelo tanto que eu venho aprendendo com ele.

Eu sou extremamente acelerada, faço trocentas coisas ao mesmo tempo, que nem sempre saem da maneira como deveriam e a culpa é toda minha, ou da minha pressa. É melhor resolver tudo em uma hora e não ficar satisfeita, ou resolver 70% das tarefas em um dia inteiro e ter um resultado incrível?

Outro dia, o Pedro passou um dia inteiro fazendo um desenho. Não era apenas um desenho, era uma “atividade artística” que ele mesmo inventou e resolveu fazer sozinho. Ele queria desenhar um jardim. Eu teria rabiscado uma grama, desenhado árvores, flores, um sol, umas nuvens, uns passarinhos e pronto! Jardinzinho meia-boca, mas pronto em 5 minutos. O Pedro, não. Ele desenhou tudo o que gostaria de colocar no jardim: grama, árvore, joaninha, borboleta, flor, minhoca, caracol e ele mesmo plantando mais algumas coisas no jardim. Depois de tudo desenhado, recortou um a um. Daí, pegou um outro papel e foi colando com durex tudo o que estaria no jardim. Trocou as coisas milhares de vezes de lugar e, dias depois, ainda fazia lá os retoques no jardim. Não sei se pretende atingir a perfeição ou se um artista nato simplesmente age dessa maneira.

Semana passada era a última da natação, por isso as duas aulas da semana seriam na piscina social do clube, só farra e brincadeiras. O Pedro foi lá e participou da primeira aula numa boa. Dois dias depois, seria o último dia de aula da natação nessa mesma piscina. Quando fui arrumá-lo de manhã para irmos ao clube, ele começou a chorar dizendo que não queria nadar naquela piscina, pois achou a água muito fria. Eu acatei e permiti que ele não participasse da aula. Ficou assistindo a Manu e o Joaquim nadando e se esbaldando e não manifestou vontade alguma de entrar na piscina, manteve-se firme e forte na decisão.

Tem um lado meu que morre de admiração e orgulho pelo tempo em que ele investe em uma atividade, como essa do jardim. Pelo capricho, pela atenção, o cuidado e a dedicação. Mas, tem um outro lado meu, muito de mãe, que sofre com esse tempo do filho. Filho este que demorou dois dias para “digerir” a temperatura da água e vir me contar chorando que a achou muito fria. E eu fico imaginando os motivos dele não ter reclamado da água fria na hora em que saiu da piscina na primeira vez. Qual será o caminho que os sentimentos percorrem dentro da cabecinha e do coraçãozinho do meu Pedro até que sejam expressados verbalmente? Será que nesse trajeto – longo e demorado, de acordo com o olhar de uma mãe acelerada – algumas coisas são perdidas e não comunicadas? Ou será que essa “digestão” mais longa dos sentimentos faz do meu filho uma pessoa mais ponderada e menos explosiva?

As respostas talvez venham ao longo de toda a sua vida, ou não, mas as lições, com certeza!

Dê sua opinião também » 4 já comentaram.


  • Desirée Lima Tapajós

    O Camila, que bom vc tem essa percepção, que mesmo seus filhos sendo
    gemêos, são diferente, isso é muito importante. Eu tenho trigêmeas,
    também sou furação, faço “trocentas” coisas ao mesmo tempo e tenho uma
    personalidade bem forte, o que foi passada para duas das minhas meninas,
    só que a terceira é doce, calma e eu também tenho que me trabalhar para
    respeitar ela/o tempo dela. Vou dizer as vezes é difícil para mim, mas
    estou tentando.

    Bjs Desirée Tapajós

    http://astrigemeasdemanaus.blogspot.com.br/

  • Desirée Lima Tapajós

    O Camila, que bom vc tem essa percepção, que mesmo seus filhos sendo
    gemêos, são diferente, isso é muito importante. Eu tenho trigêmeas,
    também sou furação, faço “trocentas” coisas ao mesmo tempo e tenho uma
    personalidade bem forte, o que foi passada para duas das minhas meninas,
    só que a terceira é doce, calma e eu também tenho que me trabalhar para
    respeitar ela/o tempo dela. Vou dizer as vezes é difícil para mim, mas
    estou tentando.

    Bjs Desirée Tapajós

    http://astrigemeasdemanaus.blogspot.com.br/

  • marinheiradeduasviagens

    acho que deve ser muito fantástico isso neh?!
    ter gêmeos, ainda mais os seus questão idênticos mas serem pessoas totalmente diferentes!
    deve ser algo fantástico!
    logo logo estaremos passando por isso também, se Deus quiser!

    beijoosss

    Juh Guimarães

  • Cris

    Eu também sempre me impressiono e reflito sobre essas diferenças… em muitos casos, é bem mais fácil lidar com aquilo que conhecemos bem, que nos é familiar. Minha filha mais velha é muito diferente de mim, é destemida, corajosa, cheia de energia, temperamento forte, enquanto eu sempre fui apaziguadora e até medrosa pra muita coisa. Ao mesmo tempo que a admiro tenho dificuldade de entendê-la às vezes. Mas esse é um dos grandes desafios da maternidade, não?