SOBRE A ERA TOUCHSCREEN

Há mais de 15 anos, quando eu tinha os meus bons 15 anos e era uma aluna do 1º. colegial, entrou um aluno novo na minha turma. Não consigo lembrar o nome dele, mas me recordo perfeitamente dos óculos “fundo de garrafa” e do laptop que ele usava para anotar as aulas. O menino sentava-se na primeira fileira, quase colado na lousa, mas tinha um grau super alto de miopia e não conseguia enxergar nada. Por isso, ele era o único autorizado a usar computador na escola.

Um menino usando um laptop em sala de aula naquela época seria equivalente a alguém se transportando em uma nave espacial no trânsito de São Paulo. Impensável.

Mais de 15 anos se passaram e o laptop está quase obsoleto, vejam só.  A tecnologia caminha a passos largos e está em todos os lugares. Eu não consigo imaginar como seria a minha sala de aula daquela época com toda a tecnologia disponível dos atuais tempos modernos. Só sei que não se chamaria mais 1º. colegial, fato. Mas será que os alunos usam cadernos? Fichários? Lápis e borracha? Ou anotam as aulas e fazem lições em seus tablets, compartilham na “nuvem” do professor, que corrige e devolve ao aluno, tudo através desse nebuloso conceito de nuvem? O máximo da modernidade tecnológica da minha vida como estudante, há quase 10 anos, era enviar capítulos do meu TCC para a minha orientadora através do email, ou melhor, zipmail, lembram? A gente também digitava os trabalhos em casa, levava em disquetes (!!!) para imprimir na faculdade e entregar ao professor. Ou seja, não precisávamos mais fazer trabalhos escritos a mão!!! Grande evolução.

Novamente, ainda não consigo imaginar uma sala de aula hoje em dia. Como é que os alunos anotam, estudam, fazem provas e lições? Como é que os professores “driblam” o Google, as redes sociais e tiram proveito de toda a tecnologia? Como é que tablets, smartphones e etcs afins não se transformam nos piores inimigos dos professores?

Conversando com um amigo professor, entendi que a tecnologia atua como aliada, no sentido em que é utilizada como recurso valioso, lotada de possibilidades. Isso não é novidade alguma, mas a tecnologia não pode ser “muleta”. Um exemplo simples: a resposta para uma questão sobre a relação entre a Revolução Industrial e o êxodo rural é facilmente encontrada no Google, mas a opinião de um aluno sobre esse momento histórico exige que usemos os nossos bons e velhos cérebros. Ambos os cérebros, do professor e do aluno. Ambos precisam elaborar, professor e aluno. Portanto, tecnologia é recurso e não muleta.

O meu entendimento e a minha experiência sobre a tecnologia nos meios escolares e acadêmicos é semelhante ao meu entendimento acerca da tal nuvem: nebuloso. No entanto, posso falar sobre a relação entre tecnologia e crianças sem precisar jogar no Google.

Algumas pessoas se chocaram com a matéria daquela revista semanal considerada “do mal” mostrando uma mãe que presentearia a filha de 2 anos com um tablet no Dia das Crianças. A matéria discorria sobre crianças cada vez menores e cada vez mais familiarizadas com toda a tecnologia, especialmente a do “touchscreen”. Não é novidade. Novidade interessante é notar como especialistas da área médica também estão utilizando a tecnologia como recurso para a reabilitação dos seus pacientes. Como eu disse, recurso. A muleta, no caso das crianças, repete o case da TV como babá eletrônica, que consiste basicamente em deixar a criança diante da TV para ter paz, sossego e conseguir cumprir tarefas. Com tablets e smartphones é a mesma coisa.

A tecnologia está aí, impossível ignorá-la e bani-la 100% das nossas vidas e das nossas crianças. Falando especificamente da Era Touchscreen, há milhares de aplicativos incríveis capazes de promover educação e aprendizagem. Concordo, reconheço a importância a coloco em prática o argumento de manter as brincadeiras tradicionais, ao ar livre e que movimentem muito mais do que os dedos de uma mão. (No entanto, acho curioso contar que esse post foi escrito em um momento em que a internet caiu, só consiguia abrir o Word e digitar. Me sinto um pouco “fora do ar” sem poder fazer nenhuma pausa para checar emails ou dar uma olhada nas minhas redes sociais…)

Mas, e aí? Qual é o limite da utilização dessa tecnologia toda, seja para os adultos ou para as crianças? Recurso x Muleta? Aliás, email é recurso e redes sociais são muletas para o simples passatempo? Criança pode usar (e abusar??) essas muletas também? Durante uma longa viagem de avião, por exemplo? Ou em um restaurante? E em casa? Por quanto tempo? Com ou sem supervisão e auxílio de um adulto?

Dê sua opinião também » 9 já comentaram.


  • Equipe Babycub

    Eu acredito que na vida tudo tem limite. As crianças de hoje em dia são privilegiadas com esse avanço tecnológico e elas merecem usá-lo, mas, isso não significa que ela tenham que viver só disso! Não podemos deixar a infância acabar, as brincadeiras antigas e os velhos hábitos como saber que a hora da refeição é uma hora sagrada e etc..

  • Virgínia

    Como falaram aí em cima, tudo tem limite. Do mesmo jeito que não podemos privá-las da tecnologia, não podemos fugir da responsabilidade de zelar para que brinquem como crianças.

    Hj se discute os smartsfones e os tabletes, como antes eram os pcs, os vídeo-games, a TV… Tudo na sua época.

    Meu bebê tem 9 meses e é muito pequeno para saber o que é tudo isso que hoje nos rodeia, mas adora pegar meu IPhone e ficar deslizando o dedinho, vendo as imagens passarem. Não foi ensinado por ninguém. Talvez seja uma habilidade natural ou imitação, mas não deixa de ser interessante.

  • http://www.pequenoguiapratico.blogspot.com/ Mari BZ

    Que loucura tanta mudança em tão pouco tempo! Também sou da época em que o 1o. colegial se chamava 1o. colegial, oras! Nem sei como ele se chama hoje em dia, e tenho a estranha noção que isso me faz ser para a molecada de hoje o que a minha avó era pra mim quando falava de ginasial, normal, clássico: alguém do passado, separada de mim por um gap geracional intransponível. Céus! Disquete flexível, lembra? Depois disquete rígido. Trabalhos impressos. AOL. Salas de bate-papo. Fiz meu primeiro email já na faculdade… Cacilda, tô velha, me abraça?
    (Nem consigo elaborar a questão das crianças com tecnologia, meu pensamento travou no “zipmail”, hahaha! SOCORRO!)
    Beijão!

  • Sara vls

    Acho que a palavra chave para tudo é LIMITE! Na minha época também não tinha tanta tecnologia disponível, mas mesmo assim a gente tinha horário pra brincar, para fazer as tarefas, pra ajudar… quer dar um tablet pra criança, acho ótimo, tem muita coisa legal… o que não quer dizer que, só porque o tablet é dela ela pode usar quando e como quiser…
    No mais, acho que se a tecnologia está ai, é pra ser usada sim!! Com moderação, como tudo na vida!

  • Camila Bandeira

    Camila, como comecei a dar aulas agora, vou te dar um panorama: as tarefas e conteúdo das aulas ficam num site, onde os alunos consultam tudo, dia a dia.
    Para evitar plágios, a universidade disponibiliza para os professores programas “anti-plágios”, mas o google ajuda muito nesse caso.
    E, claro, ao invés das conversas em sala de aula, lutamos contra as conversas virtuais em facebook, instagram e smartphones durante a aula…. 

  • Francine Barrionuevo

    Acho simplesmente impossível privá-los dessas novas tecnologias e também não sei se seria a melhor opção. Mas, como tudo nessa vida é preciso sim impor limites. Meu filho ganhou de presente da avó um playstation e ele ainda vai fazer cinco anos. Eu não compraria jamais um game desse ou parecido agora, esperaria ele ter uns seis ou sete anos. Mas, não recusei o presente dado de boa vontade. Selecionamos os jogos que ele pode jogar e limitamos o tempo, igual fazemos com a tv. Simples assim.

  • http://paiogro.wordpress.com/ Pai Ogro

    A questão é a seguinte: tudo tem sua hora. O superestímulo das imagens frenéticas, da luminosidade hipnotizante, me parece fora de hora nos primeiros anos de vida, mesmo com controle do tempo. Algo que atrai a criança como mágica sempre deve ser visto com um pé atrás. Pior ainda quando serve para “dar uma folga” para os pais. A “folga” deve ser ditada pelo bom senso e pela necessidade, não pela facilidade de encontrar um substituto.

  • Pauline Incutto

    Oi, Camila!
    Questãozinha difícil!
    Minha filha tem 1 ano e adora IPhone, laptop, tablet; inclusive tem brinquedos que são réplica dos mesmo. Acho meio inevitável o uso destes, o problema é o uso indiscriminado e sem limites como citado nos outros comentários.
    Na verdade passei aqui para perguntar se você assistiu ao Profissão Repórter desta semana? O tema discutido foi exatamente este: tecnologia e as crianças. Não assisti porque é muito tarde para o meu horário, mas minha mãe viu e ficou chocada de como as crianças estão viciadas (e falou um monte comigo, é claro). Acho que vale a pena assistir! Inclusive aborda o uso de tecnologia em sala de aula.
    Bjs…

  • PatriciaG

    Concordo com o pai ogro, tudo tem seu tempo!!! Não vejo como positivo o acesso da internet por crianças tão pequenas. Como vc mesmo sugeriu Camila, nós, adultos, acabamos ficando meio
    viciados em todas as possibilidades que a internet proporciona, imagina
    uma criança de menos de 5 anos??? Além disso, ninguém vai ficar “atrasado” se não tiver um tablet desde os 2 anos de idade!!! A tecnologia vai fazer parte da vida dessa geração anyway…. Tenho um filho de 2 anos que nunca chegou nem perto de um tablet,  e quando preciso distraí-lo uso as técnicas tradicionais mesmo, música, brincadeiras, jogo de colorir, e até bronca e ter que voltar pra casa, fazer o quê! Não acho que a necessidade de distrair as crianças pra fazermos alguma tarefa ou pra ficarmos mais tranquilos fora de casa seja uma desculpa razoável para que eles tenham acesso a ipads, celulares e etc. Afinal criança é criança desde sempre, como nossos pais nos acalmavam em tempos sem internet???