A VIDA FORA DA BARRIGA

Na época em que eu era uma mocinha solteira, nada sabida e pouco interessada no assunto filhos ouvi de uma louca mulher, já mãe de segunda viagem, que o bebezinho recém-nascido dela dava muito trabalho, pois estava em fase de adaptação à vida fora do útero.

Hummm… a minha impressão desta pessoa já parece óbvia: qual é a dificuldade, minha gente? Aqui fora tem luz, colinho, carinho, leitinho, o que pode ser tão difícil??

Um bom tempo depois, eu tive a minha primeira filha, nascida após 40 semanas completas de gestação, um bebezinho “perfeitamente adaptado” à vida extra-uterina. A frase da doidinha continuava sem fazer sentido na minha cabeça.

Pouco tempo depois, nasceram os meus meninos gêmeos, Joaquim e Pedro, saídos da minha barriga depois de 37 ½ semanas de gestação, o que foi considerado excelente para uma gestação gemelar. Nasceram com peso de bebês “únicos” (3,2kg e 2,3kg), mas o Pedro, que foi o menorzinho, disseram-me que já estava quase em sofrimento fetal, também conhecido por “esmagamento na placenta” pelo seu irmão gêmeo grandão. Eu mesma tive a tal da “atonia uterina”, uma hemorragia fortíssima e séria no pós-parto, que me deixou anêmica por um bom tempo. Mas, tendo em vista a saúde, o peso e a desnecessidade da UTI neonatal, tudo foi considerado um sucesso.

Então, os meninos vieram para casa e o sufoco começou. Eles só choravam, dia e noite, noite e dia sem parar! O recorde de tempo sem choro era de uns 15 minutos, não importava se era dia ou noite. Eu não dormia e não conseguia ir a lugar algum com eles, afinal, que agradável, não? A verdade é que eu fiquei tão transtornada que pouco me lembro da época, só sei que era intensamente enlouquecedor e cansativo, tanto que me arrepia a alma até hoje ouvir um bebezinho urrar.

Resolvi cuidar do problema, era lógico que havia um problema de verdade e só poderia ser cólica. Não é verdade que os bebês têm cólica? O “normal” é que elas apareçam e façam os bebês urrarem, se contorcerem e ficarem quase roxos de dor, não é mesmo? Não tá certo isso? Dos urros, eu me lembro bem, agora “contorcionismos” e bebês roxos, não posso afirmar. Mas era cólica. Cer-te-za.

Tratei de atacar a cólica. Com métodos “naturais” como colocá-los na minha barriga, bolsas de água quente, chazinhos da vovó e até coisas mais “hardcore”, como medicamentos.

E, acreditem: nada resolveu. Passaram-se 3 meses e eles não choravam mais, eram bebezinhos alegres e deliciosos que, tadinhos, sofreram muito de cólicas nos 3 primeiros meses de vida.

Incrível como eu realmente acreditei nisso até ontem. Cólicas. Todos os bebês têm cólicas. Como se isso fosse verdade.

Confesso que errei e que ataquei o problema errado. Mas, era o possível para mim naquela época, da montanha-russa mais radical em que eu já entrei. Não me sinto culpada, de verdade, pois tenho a consciência de ter feito o meu melhor, de ter sido a melhor mãe para eles naquele comecinho de vida, a melhor mãe que eu pude ser naquela fase deles e minha.

Hoje em dia, certamente faria diferente, aliás, acho que faço. Não procuro enfrentar os problemas e dificuldades da maternidade de acordo com o que está escrito nas bíblias dos bebês e crianças, do que é normal e esperado para cada fase de suas vidinhas. Eu olho bem fundo nos olhos dos meus filhos e tenho certeza que (ainda) os conheço melhor do que ninguém. (Já perceberam como brilham os olhos das crianças?). E é esse o meu norte: o brilho nos olhos dos meus filhos. Eles me dizem um monte de coisa e me mostram qual caminho trilhar.

A gente dormia muito junto, aqueles cochilinhos da tarde e, quando isso acontecia, eles se acalmavam. Depois, aprendi que se eu não podia deitar e descansar com eles, colocava os dois para dormir juntos, no mesmo berço ou até no moisés. Eles ficavam juntinhos, bem apertadinhos e também se acalmavam. Isso foi puro instinto, uma maneira de “imitar” a vida uterina dos gêmeos, ou de colocá-los junto de mim, sentindo o cheiro, a respiração e os batimentos cardíacos da mãe. Falar assim me parece até bobo de tão óbvio que é, mas naquela época, não era. Era instinto.

Quem não quer??

Não me culpo, não me arrependo e também não estou aqui para aconselhar ninguém, só para refletir mesmo. Pois tenho essa sensação de que uma ficha demorou quase 4 anos para cair. E a vida continua, com todas as suas dificuldades e alegrias, não tem escape, assim como fica difícil fugir da idéia de que cada um é o melhor que se pode ser. Simples assim. Complicado assim. Conflituoso assim. Eu já quis ser a melhor, mas tenho plena consciência de que sou a melhor que eu posso ser e é inacreditável como essas palavras – que mais se parecem um balde de água fria – saiam dos meus pensamentos, passem pelos meus dedos no teclado, registram uma página do Word do meu computador e me caiam como um verdadeiro abraço. O abraço poderia ser dos meus filhos. Acho que não seria um abraço de muita alegria e entusiasmo, mas nem um abraço de tristeza também. É daqueles maduros, de compreensão e que, também instintivamente, oferece o ombro para que eu possa aconchegar a minha cabeça, já leve.

Aos meus filhos, o meu amor e agradecimento eternos.

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  • Equipe Babycub

    Ain que post lindo!! Eles são muito fofos!!
    Com certeza deviam ficar muito mais calmos dormindo juntinhos =)

  • Renata

    Que relato lindo! Também sou mãe de gêmeos e me emocionei. 

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