A cama de viúvo

As dimensões que abrigavam e aconchegavam aquele corpinho fofo de bebê durante o sono repentinamente ficaram pequenas. Ele mesmo me “contou” durante algumas noites seguidas, perto de completar 3 anos, fazendo-me ouvir batidas de braços e pernas nas grades de laca branca.

Providenciei uma cama nas tais medidas de “viúvo”, nem uma cama de solteiro e nem uma de casal. Viúvo. De-tes-to o termo, mas assim que ela é. Grande, espaçosa e confortável para uma criança, de tamanho suficiente até que ele resolva casar e sair de casa lá pelos 35, 40 anos, meu filho. Te dei a colher de chá da caminha de rodinha embaixo para os seus amigos e primos. Até hoje, apenas uma irmã e uma avó quiseram testá-la, ou a culpa é da sua mãe que ainda acha uma grande responsabilidade trazer os filhos alheios para passar à noite aqui.

A cama recebeu uma manta de tricô azul marinho, daquelas de tranças. Coisa de rapaz, para o meu ex-bebê, agora nem tão fofo, mas troncudinho, quase musculoso. Sem as deliciosas dobrinhas, porém alto e forte a cima da curva.

Providenciei uma mesinha de cabeceira, com abajurzinho, livrinhos, bloquinhos de desenho, um porta-lápis e algum carrinho para enfeitar. Foi tudo muito cuidadoso, pensado e especial, já que aquela mesinha um dia ficou ao meu lado, abrigando as minhas coisas durante os meus primeiros anos de casada. Feio mesmo foram as grades removíveis. Coisa temporária, pensei, até ele se acostumar com o “camão” perpendicular à parede do quarto.

Se antes eu ouvia bracinhos e pernas, ainda com um resquício de dobrinhas, batendo nas grades do antigo berço, passei a ouvir brinquedos e abajur caindo durante a madrugada. Estes mesmo, os da produção da minha ex-mesinha de cabeceira. Tirei tudo, até o porta-retratos e adotei o estilo “clean”. Branco, simplista, minimalista, como quiserem. Aliás, que bobagem, de que serve uma mesinha de cabeceira vazia? Não sei, mas ficou lá.

As noites voltaram a ser silenciosas, nada de brinquedo sendo estapeado e caindo no chão às 3, 4 da manhã.

Faça chuva ou faça sol, levanto todas as noites para dar um check nas crianças e cobri-las, faça frio ou faça calor. Em uma dessas ocasiões, encontro a cama de viúvo com a colcha azul marinho vazia. Grades no chão. Menino idem. Encolhidinho, de lado, mãozinhas entrelaçadas apoiando as bochechas já não mais gorduchas de bebê. Aparentemente bem, afinal dormia. Um sábio homeopata costumava dizer: “não mexa em criança que está dormindo, criança que dorme, está bem”. Mas eu mexi. Filho que se mexe mais do que um terremoto, derruba as grades removíveis da cama (olha que não é fácil, hein?!), cai no chão, não faz barulho, não chora, não merece passar o resto da noite assim, por mais macio e limpinho que seja o carpete.

E assim são algumas noites. Surpresas sem aviso ou barulho. Já liberei a mesinha e ando pensando em cercar de vez a cama. Você prefere, Joaquim?

Dê sua opinião também » 2 já comentaram.


  • Moni_lourenco

    Um texto lindo! Tocou no meu coração porque estou exatamente nesta fase! rsrs

  • Cássia Dias

    Passei por isso com meu Pequeno… Solução?? Com 1 ano e 6 meses foi dormir num colchão de CASAL no chão, afinal eu tinha medo que caísse… e com 1 ano e 8 meses, quando já achei maduro o suficiente, ele enfim ganhou a sua caminha, box, king… linda!!!! Pelo menos garante as minhas noites de sono…

    Cássia  

    http://www.vida-de-mae.blogspot.com