Medos: cobras, lagartos, pai e mãe

Manuela tem sentido medos. Os meninos também, porém são bastante diferentes. Eles aparecem no meu quarto no meio da noite dizendo que tem cobras, baratas e formigas em suas caminhas ou embaixo delas. Isso é, quando conseguem sair da cama, pois de vez em quando o medo é tão real, os bichos horrorosos são tão verdadeiros que não têm nem coragem de levantar e apenas me chamam aos gritos para socorrê-los.

Às vezes sonham com bruxas e outros personagens “do mal” ou simplesmente sentem medo do escuro. Já tô acostumada e acho mesmo que faz parte.

Mas, como disse, a Manu anda medrosa e o medo mudou. Trata-se, agora, de um medo relacionado a mim e ao Maridinho.

Há algum tempo, ele estava trabalhando com o caso de um cliente no nordeste, o que exigiu viagens frequentes para lá. Não basta ser longe, tem que ser extremamente difícil de chegar (avião, aviãozinho e carro), o que significa uns 3 dias para apenas uma reunião ou um papo com o juiz e, o pior: a coisa toda acontece em uma cidadezinha conhecida pelo serviço mais precário de internet e celular do nosso país. Ou seja, a desconexão é quase total e a saudade, geral!

O caso do Piauí aparentemente acabou, ou melhor, não requer mais viagens. No entanto, a mocinha pergunta aflita e semanalmente se o Papai precisará ir pra lá. Às vezes, ela dorme além da conta (aleluia, amém!) e acorda após o horário da saída dele para o escritório. Isso rende um chororô eterno, lágrimas em excesso, mágoa e tristeza sem fim, um drama! Ou, outras vezes, ele chega após o horário de dormir das crianças. Quando percebo que eles não aguentam mais esperar, coloco a galera na cama, mas ela não dorme. Fica lá quietinha na cama e, ao tão esperado som da porta abrindo, levanta aos pulos e se pendura no pescoço do pai.

Comigo é diferente, já que passamos muito mais tempo juntas. Ainda assim, ela acha motivos para reclamar. Esse ano, Manuzinha mudou de escola e passou a sair um pouco mais tarde, às 18h. Só que, quando termina o horário de verão, na hora da saída já está de noite, o que é motivo para o drama:

- Mamããããããeeeee, eu não quero ficar na escola até de noiteeeee!! Assim eu passo pouco tempo com vocêêêê!

Um mínimo arranhão ou uma picada de pernilongo são motivos suficientes para ela tentar negociar uma “ficada em casa com a Mamãe e não ir para a escola até de noite”.

Mas, o mais difícil para mim, aconteceu durante as férias, período em que ficamos grudadinhas o tempo todo, nada de “escola noturna”. Manuela saiu do banho, enrolada na sua toalha de capuz de gatinho, coisamaislindadedeus, me segurou o rosto e falou muito séria:

- Mamãe, você promete que nunca vai trabalhar no escritório igual ao Papai?

Eu prometi e juro que prefiro gritos histéricos de madrugada por medo de cobras e lagartos.

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  • Tetete Trani2

    ahhh Camila  Quando pera pequena (faz muuuuito tempo !!! )  minha mãe trabalhava fora e uma das minhas maiores alegrias era de qdo eu ficava doente (catapora, caxumba, etc…. ) só pq ela faltava do trabalho  pra ficar  comigo ……acho é por aí … apesar da todas as exigências do mundo de hoje (trabalhar fora) criança quer pai e mãe por perto mesmo ……

  • Re

    Que linda…acho esses medos normais..a medida que a criança vai crescendo e tendo mais noçao da vida, da morte, do tempo, os medos mudam..a gente se angustia junto, ne? E nessas horas, so a nossa presença mesmo para acalmar a alma e o coracao.

  • Sara vls

    Eles arrasam a gente, né??? É de cortar o coração….